Em Los Angeles, a antiga capital da cultura mundial, o Sunset Boulevard enfrenta um novo roteiro: placas de “aluga-se” dominam a paisagem. A Bloomberg reuniu os grandes nomes da mídia para discutir o futuro do entretenimento, onde a prioridade é licenciar o tempo dos usuários.
Por que Hollywood está perdendo seu brilho?
A outrora vibrante Hollywood enfrenta um momento de declínio. Mais de um terço dos imóveis comerciais estão desocupados, contrastando com Nova York e Miami, que mantêm taxas de ocupação elevadas. Os empregos no setor de cinema e TV sofreram uma queda de 42% em apenas dois anos, enquanto a produção e a ocupação dos estúdios atingiram seus níveis mais baixos desde 1995.
Enquanto isso, Miami emerge como um novo polo cultural, atraindo talentos e investimentos que antes eram exclusivos de Los Angeles. A situação é agravada pelo desemprego local, que supera as médias da Califórnia e dos Estados Unidos, indicando um enfraquecimento da economia criativa na região. Este cenário de declínio impacta diretamente a economia local, com reflexos no mercado de trabalho e nos esforços de reconstrução pós-incêndios.
Qual é a nova estratégia das gigantes do entretenimento?
As streaming wars ficaram para trás. O foco agora é o tempo que os usuários dedicam ao conteúdo licenciado. Cada minuto de atenção se converte em receita, impulsionada pela propriedade intelectual que se estende para além das telas, alcançando parques temáticos, restaurantes e outras experiências físicas.
A Disney lidera essa transformação, convertendo licenças em infraestrutura e expandindo seus parques e atrações. A Netflix, por sua vez, aposta em espaços físicos como as Netflix Houses e investe em eventos esportivos para manter o público engajado. A Warner Music explora biopics e docuseries para revitalizar seu catálogo, enquanto a Meta busca ampliar o tempo de uso do Instagram, transformando a plataforma em uma experiência de TV. A Oracle, com a aquisição da Paramount, busca aplicar uma lógica de tecnologia e M&A para otimizar o tempo de usuário.
Como a Disney transforma licenças em receita?
A Disney, com quase um século de experiência, domina o licenciamento, transformando-o em uma engrenagem essencial para seus negócios. Em 2024, o varejo de produtos licenciados gerou cerca de US$ 63 bilhões. A divisão Experiences da Disney contribuiu com US$ 34,2 bilhões em receita e US$ 9,27 bilhões em resultados, sustentando um plano de investimento de US$ 60 bilhões em parques, cruzeiros e produtos.
Para maximizar o tempo de atenção do público, a Disney investe continuamente em novos “mundos”. Seus parques temáticos incorporam patrocínios como parte da experiência, com empresas como Enterprise, Bank of America e Pandora estampando suas marcas em atrações populares. No mundo digital, a Disney investiu US$ 1,5 bilhão na Epic Games para criar um “universo persistente” no Fortnite. Além disso, a empresa expande sua presença física com um novo parque e resort em Abu Dhabi, em parceria com a Miral.
A aquisição da Lucasfilm por US$ 4 bilhões em 2012 gerou retornos significativos em bilheteria, produtos de consumo, streaming e parques temáticos. Sob a liderança de Bob Iger, Lucasfilm e Marvel triplicaram seus retornos, demonstrando o poder de investir em propriedades intelectuais (IPs) para criar mundos imersivos e capturar o tempo dos usuários. A Apple também está investindo pesado para seus produtos.
Qual a estratégia da Netflix para além do streaming?
A Netflix percebeu que a retenção de audiência é mais valiosa do que a estreia de novos conteúdos. A empresa inaugurou as primeiras Netflix Houses em Dallas e um restaurante em Las Vegas. As franquias de sucesso, como Stranger Things, Squid Game e Bridgerton, ganharam vida com experiências imersivas, lojas temáticas e parcerias com marcas como Xfinity e Mastercard.
Além do streaming, a Netflix investe em eventos ao vivo, como o licenciamento da WWE por US$ 5 bilhões em 10 anos e os jogos da NFL por US$ 150 milhões no Natal. A empresa também está na disputa pelos direitos da Champions League por mais US$ 5 bilhões. Para complementar sua oferta, a Netflix adicionou jogos ao seu aplicativo, com foco em party games que incentivam os usuários a permanecerem dentro do ecossistema da plataforma.
Como a Warner Music está transformando seu catálogo em lucro?
A Warner Music, sob a liderança de Robert Kyncl, adotou uma abordagem semelhante à de um estúdio de cinema: transformar seu vasto catálogo musical em narrativas audiovisuais para maximizar o tempo de atenção dos espectadores. O CEO da empresa busca parcerias para levar as histórias de artistas como Madonna e Cardi B para as telas, transformando músicas em biopics e docuseries que perpetuam o legado musical e atraem novas gerações de fãs.
A estratégia da Warner Music visa garantir que seu IP continue relevante e lucrativo, aproveitando o crescente interesse do público por conteúdo biográfico e documental. Ao transformar seu catálogo em narrativas visuais, a empresa não apenas aumenta o tempo de exibição, mas também cria novas oportunidades de receita e fortalece a conexão entre os artistas e seus fãs.
Como o Instagram planeja dominar a sala de estar?
Adam Mosseri, chefe do Instagram, está desenvolvendo um aplicativo de TV para o Instagram, projetado para sessões de visualização mais longas na sala de estar. Adaptar o formato de conteúdo curto para a TV aumenta o inventário conectado sem a necessidade de comprar direitos de ligas esportivas ou conteúdo exclusivo de Hollywood. A ideia é transformar o feed do Instagram em uma programação de prime time, aproveitando a rede de influenciadores que já criam conteúdo de forma gratuita.
O YouTube já domina as TVs, mas a Meta ainda é predominantemente uma plataforma móvel. A transição do celular para o controle remoto representa uma oportunidade de capturar mais tempo de atenção dos usuários e expandir o alcance do Instagram para novos públicos.
Perguntas Frequentes sobre Licenciar o Tempo
Por que as empresas de mídia estão focando em licenciar o tempo?
As empresas de mídia estão focando em licenciar o tempo porque perceberam que a atenção do usuário é um recurso valioso. Ao criar universos onde o público escolhe ficar, elas podem gerar receita através de assinaturas, publicidade, patrocínios e vendas de produtos.
Como a Disney está se beneficiando do licenciamento de tempo?
A Disney está se beneficiando do licenciamento de tempo através de seus parques temáticos, produtos de consumo e investimentos em conteúdo digital. Ao criar experiências imersivas e mundos de fantasia, a empresa atrai um público fiel que está disposto a gastar tempo e dinheiro em seus produtos e serviços.
Qual o papel da Meta (Instagram) na economia da atenção?
A Meta, através do Instagram, busca ampliar o tempo de uso da plataforma, transformando-a em uma experiência de TV. Ao adaptar o formato de conteúdo curto para a sala de estar, a empresa espera capturar mais tempo de atenção dos usuários e aumentar suas oportunidades de receita.
Via Brazil Journal






