Estudo sobre psicografia: entre a ciência e a fé no Brasil

Pesquisa da UFJF analisa cartas mediúnicas e reacende debate sobre psicografia como ciência ou fé no Brasil.
01/11/2025 às 14:01 | Atualizado há 1 mês
Estudo sobre psicografia: entre a ciência e a fé no Brasil

A psicografia, a prática de escrever mensagens supostamente ditadas por espíritos, sempre despertou curiosidade e ceticismo. Recentemente, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) conduziu um estudo sobre cartas mediúnicas, reacendendo o debate sobre a validade científica de tais fenômenos. Mas, afinal, o que essa pesquisa revela e como ela se encaixa no contexto acadêmico e científico?

O que é psicografia e por que ela atrai tanto interesse?

A psicografia é um fenômeno no qual uma pessoa escreve textos que alega serem ditados por espíritos. Essa prática está intimamente ligada ao Espiritismo, que busca demonstrar sua cientificidade desde os tempos de Allan Kardec, que se impressionou com mesas girantes e tabuleiros alfabéticos do século 19.

No entanto, mesmo com o avanço da ciência, a psicografia continua a intrigar muitas pessoas, dividindo opiniões entre aqueles que acreditam na comunicação com o além e os que veem o fenômeno como resultado de processos psicológicos ou até mesmo charlatanismo. A busca por respostas sobre a vida após a morte e a possibilidade de contato com entes queridos falecidos são alguns dos fatores que mantêm o interesse na psicografia.

Qual foi o foco do estudo da UFJF sobre cartas mediúnicas?

A pesquisa da UFJF, publicada na revista Transcultural Psychiatry, investigou uma carta supostamente psicografada por um médium, que teria sido escrita por um filho falecido para seus pais. O estudo partiu da premissa de que a psicografia poderia ser uma forma de “recepção anômala de informação”.

Durante o experimento, os pais preencheram uma ficha com informações sobre o filho e concederam uma breve entrevista ao médium antes da sessão de psicografia. A carta resultante foi então analisada e as informações contidas nela foram classificadas em categorias como “específica”, “genérica” e “divulgada”, de acordo com o grau de detalhe e a probabilidade de serem conhecidas pelo médium.

Quais foram os resultados considerados “específicos” na carta psicografada?

Entre as informações consideradas “específicas” pelos pais estavam hábitos e características do filho que, segundo eles, seriam difíceis de o médium conhecer por outros meios. A carta mencionava que o jovem costumava se esconder para assustar a mãe, deixava o prato sujo no balcão, e ouvia da mãe a frase “menino, pega essa toalha molhada!”.

Outros detalhes incluíam o sonho do jovem de comprar um carro aos 18 anos, o costume de brincar com a mangueira de água no quintal e um sorriso largo com dentes marcantes. No entanto, o próprio estudo reconheceu que algumas dessas afirmações poderiam ser consideradas genéricas e aplicáveis a várias pessoas.

Por que a metodologia do estudo foi criticada?

O estudo da UFJF recebeu críticas devido à sua metodologia. Um dos pontos questionados foi a subjetividade na definição do que seria uma informação “específica”. Além disso, a pesquisa não utilizou métodos mais rigorosos para verificar a precisão das informações, como perguntas objetivas com respostas previamente registradas.

Outra crítica importante foi o fato de o estudo partir da premissa de que a psicografia é um fenômeno real, sem que haja evidências científicas sólidas que comprovem a existência de percepção extrassensorial ou comunicação com os mortos. Essa abordagem foi comparada à “ciência da Fada dos Dentes”, que se preocupa em estudar os detalhes de um fenômeno sem comprovar sua existência.

Qual a implicação de uma universidade pública pesquisar psicografia?

A realização de estudos sobre estudo de psicografia em uma universidade federal, financiada com recursos públicos, levanta questionamentos sobre a pertinência de tais pesquisas no ambiente acadêmico. Para alguns, o investimento em investigações de natureza religiosa seria mais adequado em centros espíritas do que em programas de pós-graduação.

Ainda que a liberdade de crença seja um direito individual, a utilização de recursos públicos para fomentar estudos sem rigor científico e baseados em pressupostos não comprovados pode ser considerada inadequada. A ênfase na formação de pesquisadores e na produção de conhecimento científico deveria ser o foco principal das universidades federais.

Via Superinteressante

Apaixonado por tecnologia desde cedo, André Luiz é formado em Eletrônica, mas dedicou os últimos 15 anos a explorar as últimas tendências e inovações em tecnologia. Se tornou um jornalista especialista em smartphones, computadores e no mundo das criptomoedas, já compartilhou seus conhecimentos e insights em vários portais de tecnologia no Brasil e no mundo.
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