Você já ouviu que a feijoada foi inventada por escravos ou que o tomate é um ingrediente milenar da cozinha italiana? A história da alimentação está repleta de mitos e verdades que se confundem. Será que tudo que sabemos sobre a origem dos pratos e ingredientes é realmente fato? Descubra a seguir a verdade por trás de algumas famosas anedotas culinárias.
Tomate na Itália: novidade ou tradição?
Apesar de hoje ser um símbolo da culinária italiana, o tomate tem uma história relativamente recente na Itália. Originário do México, o Solanum lycopersicum chegou à Europa no século 16, levado pelos espanhóis. Curiosamente, a fruta original era amarela, e por isso os italianos a chamam de pomodoro, que significa “maçã de ouro”.
Inicialmente, os europeus desconfiaram do tomate, considerando-o venenoso devido à leve toxicidade de seus talos e folhas. Por cerca de três séculos, ele foi cultivado apenas como planta ornamental. Somente no século 19, os italianos descobriram o potencial gastronômico do tomate, utilizando-o em diversos pratos e, através de cruzamentos, popularizaram as variedades vermelhas.
Como a falta de batata quase destruiu a Irlanda?
A batata, vinda do Peru, encontrou na Europa um lar. Adaptando-se bem ao clima frio, tornou-se um alimento essencial em países como Alemanha, Polônia, Inglaterra e Bélgica. No entanto, entre 1845 e 1849, uma praga fúngica devastou os campos de batata europeus.
A Irlanda, que dependia quase que exclusivamente da batata, foi a mais atingida. Um milhão de irlandeses morreram de fome e outro milhão emigrou, reduzindo a população do país em 25%. A praga também causou sérios problemas na Escócia, Bélgica e Holanda.
Churrasco só com sal grosso?
Os puristas do churrasco gaúcho defendem que a carne deve ser temperada apenas com sal grosso. Mas será que essa é a única forma correta? Essa tradição surgiu da simplicidade dos boiadeiros, que, no meio do campo, abatiam um boi e o assavam na fogueira, sem muitos recursos.
Hoje, com a variedade de temperos disponíveis, a escolha é sua. Use os condimentos que preferir para realçar o sabor da carne, sem se prender a regras inflexíveis. Afinal, temperos existem para deixar a comida mais gostosa.
Marco Polo trouxe o macarrão da China?
Ainda que envolta em mistério, a história de Marco Polo e o macarrão é um dos grandes mitos sobre a história das comidas. Não há provas concretas de que Marco Polo tenha realmente ido à China. Contudo, seu diário de viagem, escrito por Rustichello, menciona o consumo de macarrão pelos chineses, popularizando o relato na Europa do século 14.
No entanto, registros indicam que os etruscos, que viveram na Península Itálica antes dos romanos, já faziam algo semelhante à massa. A hipótese mais provável é que a massa tenha se desenvolvido independentemente em diferentes regiões do mundo, resultado da simples combinação de farinha e água.
Caviar já foi comida de pobre?
Até o século 19, o caviar, extraído do esturjão, era um alimento acessível à população mais humilde. A situação começou a mudar quando os cossacos, a serviço da corte russa no Cáucaso, presentearam a realeza com a iguaria, que logo se tornou moda nos palácios de Moscou.
Após a derrota de Napoleão na Rússia, a elite moscovita conquistou Paris, e o caviar se transformou em símbolo de luxo. Atualmente, o alto preço do caviar reflete tanto a demanda quanto a escassez, já que o esturjão do Mar Cáspio está ameaçado de extinção.
Tequila com sal e limão: tradição mexicana?
O costume de beber tequila com sal e limão não é uma prática generalizada no México. Na verdade, essa combinação costuma ser utilizada para mascarar o sabor de tequilas de qualidade inferior, tornando-as mais palatáveis para quem busca apenas o efeito do álcool.
O mesmo acontece com o saquê e a cachaça: o sal na borda do copo e o limão, respectivamente, podem suavizar o sabor de bebidas de qualidade duvidosa.
Feijoada: invenção das senzalas?
A ideia de que a feijoada foi criada pelos escravos, a partir de sobras de porco descartadas pelos senhores, é um mito. Apesar de ser uma história interessante, que associa a criação de um prato nacional à resistência dos oprimidos, ela não corresponde à realidade.
Os europeus sempre consumiram partes como orelha, pé e rabo de porco, cozinhando-as com leguminosas, como no cassoulet francês, na fabada asturiana e na feijoada portuguesa, feita com feijões brancos ou vermelhos.
Vinho tinto e bacalhau combinam?
Em Portugal, é comum apreciar bacalhau com vinho tinto, mas essa combinação não é das mais recomendadas. A tradição nem sempre acerta nas harmonizações, e este é um exemplo disso. Apesar de Portugal ser um grande produtor de vinhos tintos e consumidor de bacalhau, a união dos dois pode não ser a melhor escolha.
O vinho tinto, rico em taninos, substâncias antioxidantes que causam adstringência, reage com o iodo presente nos peixes marinhos, resultando em uma sensação metálica desagradável. No caso do bacalhau, que já contém iodo extra devido ao sal, o efeito é ainda mais acentuado. Opte por vinho branco ou cerveja clara para acompanhar o prato.
Peixe com laticínios não combina?
Na Itália, pedir queijo ralado para acompanhar um macarrão com peixe ou frutos do mar pode ser um grande erro. A culinária italiana tradicionalmente evita a combinação de frutos do mar com laticínios, mas essa é uma questão cultural, não científica.
Em outras cozinhas, como a portuguesa e a americana, a mistura de peixe com laticínios é comum e apreciada, como no bacalhau com natas e no clam chowder (sopa cremosa de mariscos).
Perguntas Frequentes sobre Mitos sobre a história das comidas
O tomate sempre foi usado na culinária italiana?
Não, o tomate chegou à Itália no século 16, vindo do México, e só começou a ser utilizado na culinária no século 19.
A feijoada foi realmente inventada pelos escravos?
Não, essa é uma história popular, mas a feijoada tem origem em pratos europeus que já utilizavam partes do porco com leguminosas.
É verdade que Marco Polo trouxe o macarrão da China?
Não há evidências concretas disso, e a massa já era feita de forma semelhante por outros povos antes mesmo das viagens de Marco Polo.
