Em rituais macabros, a celebração da vitória em guerras no período Neolítico envolvia sacrifícios humanos. Evidências arqueológicas revelam detalhes sombrios sobre como nossos ancestrais comemoravam seus triunfos, oferecendo um vislumbre perturbador das práticas da época.
Como eram as comemorações de vitórias em guerras na Roma Antiga?
Durante séculos, o triunfo romano serviu de modelo para celebrações militares. Na Roma Antiga, cada grande vitória militar culminava em um desfile luxuoso. Senadores e magistrados lideravam a procissão pelas ruas da cidade.
Em seguida, vinham os inimigos cativos, geralmente indivíduos de alto escalão, e carruagens repletas de despojos e outros troféus de guerra. A ostentação da pilhagem se misturava a artistas como acrobatas, músicos e cantores, o que elevava o caráter espetacular da celebração.
Qual era o ponto alto da celebração?
O general vitorioso desfilava em uma carruagem, seguido por sua família e soldados. A procissão terminava no templo de Júpiter, no topo do Monte Capitolino. Lá, o general realizava um sacrifício ao deus, geralmente bois brancos.
A celebração continuava com banquetes e espetáculos em locais públicos. O ritual celebrava o poderio militar e a humilhação dos derrotados, conforme registros literários e representações artísticas.
Quais evidências indicam sacrifícios humanos no Neolítico?
Os sítios neolíticos de Achenheim e Bergheim, na região da Alsácia, França, datados entre 4.300 e 4.100 a.C., fornecem pistas importantes. Em ambos os locais, um grupo de indivíduos brutalmente assassinados foi lançado em um poço circular.
Os corpos, seis em Achenheim e oito em Bergheim, foram encontrados junto a braços esquerdos decepados que não correspondiam a nenhum dos esqueletos. A crueldade infligida às vítimas, com inúmeras fraturas nos esqueletos, e a exposição dos braços decepados antes do sepultamento sugerem algo além de massacres ou execuções comuns.
O que a análise dos restos mortais revelou?
Esse contexto incomum sugere três cenários interpretativos. O primeiro seria a celebração de um triunfo marcial. Este envolveria o sacrifício de cativos inimigos com violência extrema e a exibição de troféus humanos coletados em batalha.
O segundo cenário seria a repatriação e o enterro de membros do grupo mortos em combate. Neste caso, corpos inteiros ou apenas os braços esquerdos seriam enterrados. A terceira possibilidade seria a punição de párias ou criminosos da comunidade, com tortura, mutilação e pena capital.
Como a ciência ajudou a desvendar esses rituais?
Uma equipe de especialistas de universidades e centros de pesquisa europeus realizou um estudo multi-isotópico das vítimas e de uma população de controle do mesmo período.
A metodologia isotópica parte do princípio de que a dieta e a origem dos indivíduos são registradas em seus corpos, criando uma assinatura isotópica. Essa “impressão digital” molecular permite reconstruir a dieta, a origem e, por extensão, a identidade dos indivíduos.
Qual foi o objetivo desse estudo?
O objetivo era comparar os dois grupos e definir a identidade social das vítimas. Os resultados revelaram que as vítimas não passaram a infância na região e tiveram um estilo de vida mais móvel. Sua dieta era mais variada e sua exposição ao estresse fisiológico, maior do que a da população de controle. Tais características são compatíveis com um estilo de vida migrante.
Ademais, o estudo apontou que as vítimas representadas por esqueletos completos e aquelas representadas por braços decepados apresentavam sinais isotópicos distintos. Isso sugere um tratamento diferenciado ligado à sua origem geográfica.
O que esses achados implicam?
A análise isotópica sugere que os braços poderiam ser de grupos estabelecidos no norte da Alsácia, enquanto os corpos completos viriam do sul. No entanto, ambos os grupos poderiam ter origens ainda mais distantes, como a bacia parisiense ou o vale do Danúbio.
A presença de inimigos de diferentes origens nos túmulos é compatível com uma guerra de conquista, na qual grupos estrangeiros chegavam em ondas sucessivas e enfrentavam a população local em diversos ataques. Os primeiros assentamentos cercados por fossos e paliçadas datam dessa época.
Qual a relação entre violência e espetáculo nesses rituais?
A violência incomum exercida contra os inimigos cativos, a “caça”, a exibição de troféus humanos e seu depósito em locais comunitários indicam um teatro político. O objetivo era a exaltação do poder, o triunfo e a desumanização do inimigo.
Esses rituais de triunfo possivelmente incluíam desfiles, música, danças e banquetes, como faziam os romanos milênios depois. Afinal, eram celebrações que visavam a ostentação do sucesso e a legitimação do poder por meio de um pacto político-religioso.
Perguntas Frequentes sobre Sacrifícios humanos no Neolítico
O que os arqueólogos descobriram sobre os sacrifícios humanos no Neolítico?
Arqueólogos descobriram evidências em sítios neolíticos na França que sugerem que sacrifícios humanos eram realizados como parte de rituais de celebração de vitórias em guerras, com corpos e membros decepados encontrados em fossas.
Como a ciência contribuiu para a interpretação desses achados arqueológicos?
A análise isotópica dos restos mortais revelou informações sobre a origem geográfica e o estilo de vida das vítimas, indicando que muitas eram estrangeiras à região, o que fortalece a teoria de que se tratavam de cativos de guerra sacrificados.
Qual a importância de estudar esses rituais antigos?
Estudar esses rituais oferece um vislumbre da complexidade social e política das sociedades neolíticas, revelando como a violência, o poder e a religião se entrelaçavam nas celebrações de vitória e na manutenção da ordem social.
Via Folha de S.Paulo
