A filantropia na ciência no Brasil enfrenta um dilema: doadores preferem projetos com resultados garantidos, enquanto a pesquisa científica necessita de investimentos em ideias inovadoras, mesmo que arriscadas. Essa discussão foi central no 2º Seminário Internacional “Ciência encontra Filantropia”, realizado na USP, onde especialistas debateram como equilibrar a aversão ao risco dos filantropos com as necessidades da pesquisa.
Por que a filantropia científica exige mais coragem dos doadores?
Paula Fabiani, CEO do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), ressaltou que muitos filantropos buscam inovação, mas hesitam em investir em projetos científicos sem garantia de sucesso. Essa postura conservadora pode limitar o avanço da ciência, que frequentemente envolve experimentos com resultados incertos.
Segundo Fabiani, a filantropia científica se diferencia de outras áreas porque o risco é inerente ao processo. Para cada experimento bem-sucedido, muitos outros podem falhar, mas essas falhas são cruciais para o aprendizado e a descoberta de soluções inovadoras.
Como o medo do risco afeta o financiamento da ciência no Brasil?
A aversão ao risco dos doadores pode dificultar a captação de recursos para projetos científicos inovadores. Paula Fabiani compartilhou sua experiência ao tentar obter apoio para a aprovação de uma lei, só conseguindo os recursos após a lei ser aprovada, quando o dinheiro era necessário para impulsionar o processo.
Hugo Aguilaniu, do Instituto Serrapilheira, complementa que potenciais doadores gostam de ciência, querem investir, mas têm receio. A distância entre a população e o conhecimento científico contribui para essa insegurança, reforçando a necessidade de uma comunicação mais clara e acessível sobre os benefícios da pesquisa.
Qual o papel da filantropia em momentos de crise política?
Hugo Aguilaniu destaca que a filantropia pode atuar como uma força estabilizadora para a ciência em períodos de turbulência política. Ele cita os exemplos do Brasil, durante o governo de Jair Bolsonaro, e dos Estados Unidos, com Donald Trump, mostrando como a instabilidade política pode prejudicar a pesquisa.
Nesse contexto, a filantropia transnacional, por meio de redes de apoio, pode garantir a continuidade das pesquisas, mesmo quando um país enfrenta dificuldades. A colaboração entre fundações de diferentes países pode facilitar o intercâmbio de pesquisadores e o financiamento de projetos.
Como a regulação pode impulsionar a filantropia na ciência?
Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), defende que a regulação pode atrair investimentos privados para a ciência, garantindo segurança jurídica aos doadores de que seus recursos serão utilizados para os fins pretendidos. A regulação também pode criar incentivos fiscais para a filantropia.
Victor Piana, do A.C.Camargo Cancer Center, sugere que as instituições científicas colaborem mais e compitam menos na busca por doações. Ao se apresentarem como um grupo de alta performance, essas instituições podem transmitir mais confiança aos filantropos.
Para Piana, é fundamental criar uma iniciativa que agrupe os atores da ciência, tornando o ecossistema da pesquisa mais transparente e compreensível para os doadores. Essa transparência pode aumentar a confiança e atrair mais investimentos para a área.
Perguntas Frequentes sobre Filantropia na Ciência
Por que filantropos hesitam em investir na ciência?
Filantropos frequentemente preferem investir em projetos com resultados previsíveis, enquanto a ciência, por sua natureza exploratória, envolve riscos e incertezas que podem afastar investidores.
Como a filantropia pode ajudar a ciência em tempos de crise?
A filantropia pode servir como um suporte crucial para a ciência em períodos de instabilidade política ou econômica, garantindo a continuidade de projetos de pesquisa e o apoio a cientistas.
Qual o papel da regulação para atrair mais investimentos para a ciência?
A regulação pode criar um ambiente mais seguro e transparente para os doadores, oferecendo garantias de que seus recursos serão utilizados de forma eficaz e para os fins pretendidos, além de incentivos fiscais.
Via Folha de S.Paulo






