A política monetária da China enfrenta um momento delicado. Com a expectativa de corte nas taxas de juros pelo Federal Reserve (Fed) dos EUA, o banco central chinês se vê em um dilema: como estimular uma economia em desaceleração sem inflar ainda mais o mercado de ações? A decisão exige cautela para evitar os erros do passado, quando medidas de flexibilização agressivas resultaram em um crash no mercado.
Qual o dilema da China diante da possível redução das taxas de juros nos EUA?
O Banco Popular da China (PBOC) busca evitar uma forte desaceleração do crescimento econômico, que poderia impactar empregos e a estabilidade social. Ao mesmo tempo, o banco central quer evitar repetir os erros de 2014-2015. Na época, a flexibilização agressiva das políticas monetárias e a empolgação dos investidores de varejo culminaram em uma grande crise no mercado de ações.
A pressão aumenta à medida que o Fed sinaliza um possível corte nas taxas de juros, o que, em teoria, daria ao PBOC mais espaço para manobrar. No entanto, especialistas acreditam que o banco central chinês deve aguardar sinais econômicos mais claros antes de agir.
Por que a China hesita em seguir os EUA no corte de juros?
Uma pessoa envolvida nas discussões internas do governo chinês afirmou que a decisão de cortar ou não as taxas de juros dependerá do estado da economia chinesa. O mercado de ações está aquecido e, segundo essa fonte, reduzir as taxas seria como “colocar mais lenha na fogueira”.
A preocupação é que um corte nas taxas possa estimular ainda mais o mercado de ações, criando uma bolha especulativa. Ao mesmo tempo, a economia chinesa enfrenta desafios, com dados recentes indicando uma desaceleração no crescimento da produção industrial e nas vendas no varejo.
Ting Lu, economista-chefe para a China da Nomura, concorda que o PBOC deve evitar cortar as taxas imediatamente se a alta das ações persistir, para evitar alimentar uma bolha. No entanto, ele sugere que um modesto corte de 10 pontos-base pode ser considerado nas próximas semanas caso os mercados se corrigirem.
Quais medidas o Banco Popular da China já tomou para estimular a economia?
Até o momento, o banco central chinês cortou sua taxa básica de juros em 10 pontos-base e reduziu o índice de reservas obrigatórias (RRR) dos bancos em 50 pontos-base. Ambas as medidas foram anunciadas em maio como parte de um pacote de estímulo mais amplo.
Apesar dessas ações, a economia chinesa continua a enfrentar desafios. O crescimento da produção industrial atingiu o nível mais baixo em oito meses em julho, as vendas no varejo caíram e os novos empréstimos em iuanes se contraíram pela primeira vez em 20 anos.
Ainda assim, Pequim deve agir com cautela nos próximos meses, e o PBOC pode relutar em seguir o Fed no corte das taxas em setembro. Essa postura reflete o dilema entre estimular o crescimento e evitar a formação de bolhas no mercado de ações.
Como a alta das ações chinesas impacta a economia?
Analistas estão otimistas em relação às ações chinesas, destacando que a alta é impulsionada por investidores institucionais, com os varejistas apenas começando a participar. As famílias chinesas, com um total de 160 trilhões de iuanes (US$ 22,45 trilhões) em economias, mostram-se cautelosas em relação a gastos e investimentos. O artigo Desafios e riscos do Home Equity no Brasil aborda outras questões do mercado financeiro que merecem atenção.
O PBOC tem desempenhado um papel fundamental no apoio ao mercado de ações, utilizando ferramentas direcionadas, como esquemas de swap e programas de empréstimo, para fornecer liquidez às instituições para a compra de ações. As autoridades esperam que o aumento das ações ajude a reparar os balanços patrimoniais das famílias, impulsionando o consumo e a economia em geral.
No entanto, analistas alertam que os benefícios econômicos dos preços mais altos das ações continuam limitados. A segunda maior economia do mundo tem sido prejudicada por uma desaceleração prolongada, com avanços em inovação tecnológica e manufatura que não compensaram totalmente os declínios nos setores tradicionais.
Dados recentes indicam que a situação pode não mudar tão cedo. Em julho, o crescimento da produção das fábricas atingiu o nível mais baixo em oito meses, as vendas no varejo caíram e os novos empréstimos em iuanes se contraíram pela primeira vez em 20 anos.
Quais são as perspectivas para a economia chinesa no restante de 2025?
As exportações desaceleraram em agosto, à medida que o impulso da trégua tarifária dos EUA diminuiu, alimentando os pedidos de mais estímulo fiscal. Com a divulgação dos principais dados de agosto, alguns analistas esperam novos planos de gastos e apoio à habitação. Um artigo sobre investimentos na agricultura chinesa pode complementar este tema.
A economia cresceu 5,2% no segundo trimestre, impulsionada por estímulos e pela trégua tarifária com os EUA. Isso sugere que um crescimento abaixo de 5% no terceiro e quarto trimestres ainda poderia atingir a meta de 2025, aliviando a pressão por estímulos agressivos.
Ainda assim, os formuladores de políticas devem se proteger contra qualquer desaceleração acentuada que possa ameaçar os empregos. Antes da pandemia de Covid-19, a economia da China cresceu a um ritmo médio anual de 6,7% no período de 2015 a 2019, de acordo com dados do governo.
Larry Hu, economista-chefe da Macquarie para a China, acredita que “dois meses de dados fracos podem levar Pequim a implementar novas medidas de mini-estímulo, especialmente para o setor imobiliário”. Ele acrescenta que “a política fiscal, que tem sido menos favorável recentemente, também pode ser intensificada”.
Como a China tem equilibrado política monetária e mercado de ações?
O Banco Popular da China tem desempenhado um papel crucial no apoio ao mercado de ações, utilizando ferramentas como esquemas de swap e programas de empréstimo para injetar liquidez nas instituições financeiras, incentivando a compra de ações. A esperança é que a valorização das ações fortaleça os balanços das famílias, que foram afetados pela crise imobiliária, e impulsione o consumo, dando um impulso à economia como um todo. Artigos sobre investimento em startups brasileiras podem oferecer uma perspectiva comparativa.
Apesar dessas medidas, alguns analistas permanecem cautelosos quanto aos benefícios econômicos de longo prazo dessa estratégia. A taxa de política monetária está em uma baixa recorde de 1,4%, 115 pontos-base abaixo do nível registrado no início da guerra comercial entre os EUA e a China em 2018. Além disso, a RRR média ponderada foi reduzida de quase 15% para 6,2%, também um recorde de baixa.
Um especialista observou que, “ao contrário dos EUA, a China vem afrouxando continuamente a política monetária, de modo que o espaço para novos cortes é muito limitado”. Essa situação complexa exige um delicado equilíbrio entre o estímulo econômico e a gestão dos riscos financeiros.
Via InfoMoney






